Avaliação Online: mais é melhor?

O texto da Stella Porto é interessante como uma abordagem às questões essenciais da avaliação que me pareceu clara e acessível. Acho, por isso, que é um bom texto introdutório para falar da necessidade de interligação e articulação entre a aprendizagem e a avaliação, da importância da avaliação formativa e do feedback, da necessidade de diversificar instrumentos e modos de avaliação ou da utilização que se pode fazer dos dados da avaliação sumativa para melhorar os processos de ensino e de aprendizagem. Também muito relevante é a referência às Rubricas enquanto instrumento de avaliação clarificador do ensino e da aprendizagem, permitindo um referencial comum e, nesse sentido, um terreno partilhado de diálogo e entendimento entre professor e aluno sobre a avaliação de determinada actividade ou produto. Enquanto instrumento que descreve e fundamenta as opções de avaliação/classificação de forma clara, elas são também um bom apoio para o desenvolvimento dos processos de auto-avaliação nos alunos.

 Em termos de uma reflexão mais alargada, acho que é preciso, sempre, nesta como noutras situações, combinar o saber produzido numa determinada área e segundo uma determinada perspectiva com outras informações, saberes e variáveis que interagem entre si quanto se passa da reflexão teórica à prática e, portanto, se tenta operacionalizar esse(s) sabere(s). É muito diferente avaliar crianças no 1º ciclo do ensino básico, jovens no ensino secundário, jovens adultos no ensino superior ou adultos possuidores já de currículos e experiências com razoável extensão e diversidade em cursos de especialização ou alargamento de competências. O grau de dependência relativamente ao apoio do professor na progressão da aprendizagem ou à avaliação desse “professor que sabe” para regular/validar essa mesma aprendizagem é diferente em todas estas situações. Considero a avaliação muito importante e um aspecto essencial na aprendizagem, mas não sou um entusiasta (sou, pelo contrário, muito crítico) da avaliação Martini, a qualquer hora e em qualquer lugar, omnipresente, omnisciente, razão e finalidade da aprendizagem. Acho que ela deve ter o seu lugar nos momentos adequados, mas há muita aprendizagem (felizmente) para além da avaliação de um professor ou de outra entidade qualquer. Já noutros momentos referi como acho negativa a actual tendência, dentro e fora da Educação, para ver a avaliação como o remédio para todos os males e a cura para todos os problemas.

Este aspecto é importante no ensino online (também nos outros níveis e modalidades de ensino, mas isso ficará para outra ocasião) - tipicamente ensino de adultos, maioritariamente com experiências pessoais e profissionais ricas – porque normalmente surge associado à figura do professor “tutelar”, sempre presente e para onde todos os olhares se viram na busca da validação sistemática e permanente dos saberes que se vão adquirindo. Esta perspectiva é má, porque é contraditória com uma série de princípios fundamentais que vale a pena observar no ensino online – autonomia, independência, auto-reflexão e auto-avaliação, dimensão social da aprendizagem, partilha de poder/controlo com o grupo por parte do professor, construção partilhada e colaborativa do conhecimento entre os membros do grupo e desaparecimento do professor como elemento central e concentrador do processo, papel que passa a ser desempenhado pelo grupo. Para que o grupo funcione e se possa beneficiar do seu potencial em termos do enquadramento das aprendizagens e da construção do saber, é fundamental que o professor saiba gerir o seu nível de presença e de intervenção nesses processos, exercendo um papel “regulador” mas não monopolizando atenções nem tornando o grupo dependente da sua voz e do seu julgamento. Naturalmente que, em modelos que prevêem um professor, este terá o seu papel importante na avaliação das aprendizagens, seja através da avaliação formativa e respectivo feedback em momentos determinados, esclarecendo aspectos menos conseguidos, realçando outros com muito sucesso, seja através da avaliação sumativa que oriente e informe sobre o grau de consecução dos objectivos de aprendizagem. Mas existem outras formas de um adulto informado e experiente, enquadrado num grupo com objectivos comuns, aferir do grau de consecução das suas aprendizagens ou da sua performance: a sua própria reflexão e análise a partir dos textos ou outros materiais que estuda; as reflexões dos outros e as suas performances relativamente às matérias em estudo; a avaliação e a crítica dos seus pares; os reparos ou correcções que vê serem feitos ao trabalho de outros, seja por pares ou pelo professor. Esse articulação é que é o caminho que conduz à autonomia e à construção partilhada e colaborativa de saberes.

Existem modelos, como o de Gilly Salmon, por exemplo (e este é um exemplo relevante porque é um dos modelos com muita popularidade entre os membros do MPEL) que nem sequer prevêem a existência de um professor, i.e. de alguém cuja função seja “ensinar” e “certificar” ou “validar” as aprendizagens. Para Salmon, ao e-moderador basta-lhe ter um nível de conhecimento dos conteúdos equivalente ao dos participantes, porque a sua função é facilitar os processos de reflexão, de comunicação e de partilha entre os membros do grupo, porque é daí que nasce o conhecimento e se faz a apropriação do saber (segundo este modelo). O e-moderador é, no fundo, um gestor eficiente e competente do fluxo de informação e das interacções (entre estudantes e entre estes e os conteúdos/materiais), um entre pares com funções específicas de facilitação do trabalho do grupo e do trabaho individual. É bom de ver as consequências que isso acarreta em termos da validação dos saberes construídos ou adquiridos, ou seja, da avaliação. Claro que, sendo este um modelo muito mais orientado para a formação em contexto empresarial, esta abordagem é adequada. Mas mesmo nos modelos mais pensados para a educação formal, o meio académico e a aprendizagem conducente a certificações, como é o caso do modelo de Garrison e Anderson, em que o professor tem um papel mais dentro das suas funções tradicionais, é notória a preocupação em desconstruir essa dependência e essa centralidade do professor no processo, deslocando para o indivíduo e o grupo muita da responsabilidade na construção da aprendizagem individual e colectiva.

A noção algo mítica do professor omnipresente, validando sempre com a autoridade do seu saber tudo o que o estudante vai realizando num contexto online é não só inatingível (não haveria horas do dia que chegassem para isso) como indesejável, porque inibe muitos dos aspectos que tornam o meio online um contexto rico e poderoso de formação para adultos, e que têm a ver com a autonomia individual face ao conhecimento e à aprendizagem, dada a quantidade de informação disponível e a experiência e o saber que o indivíduo já possui, mas sobretudo com as potencialidades que um grupo ou comunidade de aprendizagem oferecem à formação no contexto de uma construção partilhada e colaborativa do conhecimento. E isso inclui a avaliação da aprendizagem que se faz e da performance que se tem. Ressalvando, como é óbvio para mim e para evitar mal-entendidos, que o professor também tem um papel importante nesse processo, avaliando o trabalho em momentos determinados e dando feedback (não necessariamente individual, em muitas ocasiões) que permita aos estudantes aperfeiçoar aspectos que estejam menos bem.

Portfólios – será o óptimo inimigo do bom?

Sem discordar minimamente do que dizes, porque um Portfólio a sério deverá ser tudo isso que referes, às vezes colocar a fasquia num nível muito alto e considerar tudo daí para baixo algo indigno e sem valor também pode ser uma forma de inibir fortemente o seu uso. Digamos que, sendo brilhante na forma como descreves o portfólio num uso com grande qualidade, és muito dura com as pessoas que dominam pior essa ferramenta (por terem menos experiência ou familiaridade com ela), e que passam a fugir como o diabo da cruz de cada vez que ouvirem falar desse monstro inacessível (lol). Eu, que sou dos que ainda vão a meia encosta desses cumes, fico contente com o facto de as pessoas decidirem (ou aceitarem) usar o portfólio como ferramenta de trabalho e avaliação, porque acho que já é um grande passo relativamente a não usar. Mesmo se o fazem de forma imperfeita e incompleta. O tempo e a experiência se encarregarão de ir aperfeiçoando esse uso

AAO – Paula Pinheiro, sobre os Portfólios

olá Nelson e restantes colegas sorriso

de facto considero o portfólio uma ferramenta e uma estratégia de aprendizagem com a brilhante vantagem de permitir ao estudante a auto-avaliação sistemática dos processos e produtos (referindo-se isto também ao portfólio em si) e viabilizar ao professor e aos demais “observadores” um conjunto de elementos preciosíssimos sobre o trabalho do estudante, os processos que segue/seguiu, as reflexões que desenvolveu, as correcções que introduziu…. e por aí piscar

uso o portfólio em contexto presencial desde que comecei a leccionar (quase há duas décadas e meia… l�ngua de fora dito assim tem muito mais impacto do que se dissesse há quase 25 anos, meu filho grande sorrisogrande sorriso) e também fui solicitada a elaborar portfólios, enquanto estudante, quer no 3º ciclo unificado (entre 75-76 e 77-78), quer no ensino secundário e, com muito mais frequência no ensino superior (onde, aliás, o portfólio era ponto de honra da estrutura de aprendizagem e de avaliação na quase generalidade das cadeiras… quer práticas, quer teóricas ou teórico-práticas)… muitos dos colegas com quem tenho trabalhado, na minha área de leccionação, usam também o portfólio como estratégia e em moldes diversos, embora contemplando estes requisitos com maior ou menor profundidade (dependendo até do nível etário dos estudantes ou do grau de relevância da disciplina no contexto global do currículo dos alunos naquele ano de escolaridade)

um portfólio não pode ser um conjunto de trabalhos reunidos numa pasta (como, confesso, muitas vezes já vi fazer)    ele deve ser o reflexo dos trabalhos, dos processos, das reflexões… tal como deve indiciar a atitude crítica do seu autor face aos produtos que ali integra… qualquer portfólio digno desse nome deve ser tudo isto, razão pela qual muitas vezes ele inclui memórias descritivas dos trabalhos, comentários críticos sobre fases específicas de uma das etapas de um trabalho… e por aí piscar

o que provavelmente tu tens observado em situações comuns é reflexo de um mau uso do portfólio – ou por parte de quem o faz ou por parte de quem o solicita

apenas para que esta questão não fique apenas associada a situações de ensino…o uso de portfólios é comum quando desejamos angariar trabalho, ou por encomenda ou num Gabinete… também é comum utilizá-lo para efeitos de criação de uma carteira de clientes; nestes casos, é de facto habitual o portfólio mostrar apenas os produtos (exemplos daquilo que somos capazes de fazer… ou seja, a nossa “ideia” e as nossas “mãos”, que é no fundo aquilo que interessa para quem encomenda trabalho… nestes casos é assim porque, convenhamos, não interessará para nada ao nosso potencial cliente se a gente pensa assim ou assado o nosso processo de trabalho, ou se somos críticos face a isto ou àquilo… ao cliente interessa é mesmo e tão só o que somos capazes de fazer… LOL… ou, por miúdos, se temos mesmo unhas para tocar certas guitarras grande sorriso)

mas, em situação de ensino-aprendizagem, as coisas querem-se diferentes porque o que está mesmo em causa é, a maior parte das vezes, o processo em si, a capacidade de correcção e de mudança,… e isso requer reflexão; logo, o portfólio deve dar conta disso, sem dúvida sorriso

o que considero mais relevante em termos dos e-portfólios prende-se com aquilo que a tecnologia e a técnica digitais possibilitam e que permitem estratégias de análise e de revelação muito mais científicas e frequentes… com isto quero dizer que aqui, nestes meios, o autor de um e-portfólio pode integrar uma amostragem de processo extraordinariamente refinada (em sentido estrito do termo) porque a tecnologia digital permite fazer simulação efectiva, com muito menos esforço, tempo, mão-de-obra… se eu quiser mostrar as etapas de um processo de trabalho e o modo como elas foram evoluindo, sendo corrigidas, repensadas, blá, blá, blá… posso fazê-lo, com facilidade, e mostrar tudo como se estivesse a mostrar um filme de vida desse processo de trabalho             piscar imagina o que seria preciso para efectuar tudo isso em contexto presencial, com recurso a materiais fisicamente palpáveis ou através de um guião ilustrado (perdendo-se neste caso muito, em contexto de simulação “dinâmica”)

um aspecto que também considero relevante é distinguir o uso de portfólio em contexto on-line ou de apenas se recorrer à tecnologia digital para efeitos da sua execução…….. em ambos os casos o que interessa é o recurso a ferramentas de simulação (porque muito do resto são apenas ferramentas de aperfeiçoamento “realista” das formas e dos “mecanismos”)           porém, a utilização de um portfólio on-line, torna-se bastante interessante pelo que permite de abordagens interactivas no próprio portfólio… diria mesmo que o interessante é que, on-line, temos um portfólio sistémico, logo mais próximo da filosofia essencial de um portfólio      piscar e cá está um caso em que o on-line ganha por 1-0 ao off-line l�ngua de foragrande sorriso

em conclusão: portfólios SIM  mas com recurso a tudo o que faz sentido para que um portfólio seja digno da sua ideia; isto em contexto presencial ou on-line        porque interessa, num caso e noutro, que o portfólio faça uso de ferramentas que o tornem inteligente e o veiculem como a essência do pensamento e da acção do seu autor face aos produtos que ele encerra

Avaliação Presencial e Avaliação Online – O “exactamente assim” (ou não)

Concordo em boa parte com a tua análise, excepto no que se refere a “exactamente assim”. Nada é “exactamente assim” entre o mundo físico e o mundo virtual, nada é “exactamente assim” entre o ensino presencial e o ensino online. Neste passo de reconduzir o novo ao já conhecido (boa estratégia), de pensar a novidade à luz da experiência (boa estratégia, de novo), é preciso ter o cuidado de não apagar as diferenças e as especificidades, mesmo se a níveis mais gerais ou de um certo ponto de vista as coisas são similares (má estratégia). Isso traz eventualmente mais segurança e paz de espírito, mas pode fazer-nos perder o essencial do que é novo, junto com as oportunidades que lhe estão associadas.

Há, pelo menos, duas diferenças fundamentais entre o ensino presencial e o ensino online no universo da educação/formação de adultos no que se refere a estas questões das estratégias e modos de avaliação:

- o ensino presencial tem sido e continua a ser orientado por abordagens pedagógicas tradicionais (não falo das excepções, por o serem); o ensino online tem-se caracterizado pela utilização de abordagens socio-construtivistas, de natureza colaborativa (não falo das aldrabices, por o serem);

- a dimensão e diversidade dos elementos disponíveis para efeitos de avaliação (o sampling do desempenho dos estudantes/formandos, para usar um termo catita) e do material disponibilizado por outros, pares e professores/formadores, que posso utilizar como contraponto de análise ou como feedback do meu próprio desempenho é incomparavelmente maior no ensino online do que no presencial, pela natureza e nível das interacções – quase tudo o que se faz/diz no online fica registado, exactamente como se passou, e pode ser consultado uma e outra vez; no presencial, muito do que se passa e diz opera na esfera da oralidade, muito mais evanescente do que o registo escrito. Além de que, pela sua natureza digital e ubíqua, o contexto online é percepcionado e funciona muito mais como um espaço público e partilhado do que o contexto presencial. Só para dar um exemplo relativo a este aspecto, onde é que num contexto presencial as pessoas conhecem e comentam a maioria dos trabalhos dos seus colegas?

AAO – Paula Pinheiro, sobre o Entrosamento entre a Avaliação e os Processos que Fomentam a Aprendizagem

… pois, de facto este entrosamento entre a avaliação e os processos que fomentam a aprendizagem (onde incluo as actividades, as estratégias de desenvolvimento das actividades, os níveis e domínios de interacção, por exemplo) é muito maior no on-line (cingindo-me ao que me é dado ver por aqui), mas isso deve-se naturalmente a um modelo de ensino no on-line… porque outros há em que isso não se passará exactamente assim… são os modelos de ensino-aprendizagem que dão particular enfoque à autonomia do estudante e à interacção entre estudantes que assumem uma estratégia de avaliação de nível tão “profundo” em todo o processo… mas isso também é exactamente assim no presencial